Por que Coraline é tão fascinante?



 (imagem: divulgação/Universal Pictures)

A história 


Coraline é uma animação que narra a história de uma criança atraída para um universo paralelo, onde todos os habitantes possuem botões costurados no lugar dos olhos. No entanto, o que inicialmente parece um conto encantador se transforma em um pesadelo quando uma mulher que aparenta ser bondosa revela sua verdadeira natureza: um ser horrendo, tanto por dentro quanto por fora, malévolo e obsessivo, determinado a possuir a criança exclusivamente a qualquer custo.

Dirigido por Henry Selick e baseado no livro de Neil Gaiman, renomado autor de ficção científica, se destaca como uma das animações mais perturbadoras do cinema. A trama acompanha a jovem Coraline Jones, que, após se mudar para uma nova casa, se vê entediada e curiosa, desprovida da atenção de seus pais. Seu encontro com o vizinho Wyborn a leva a um presente peculiar: uma boneca de pano que é uma réplica perfeita dela mesma.


Depois que a boneca estranha aparece em casa, ela descobre uma porta secreta que a leva a um mundo diferente todas as noites. Nessa versão alternativa da sua casa, é tudo igual, mas com um toque mais legal e convidativo. Seus pais e vizinhos parecem os mesmos, mas são muito mais divertidos.

Nas primeiras visitas a esse lugar, a menina é tratada como uma rainha, com tudo o que ela sempre quis. Ela participa de atividades e shows especiais só para ela, como se fosse o centro das atenções. Mas, com o tempo, ela começa a sacar as verdadeiras intenções da sua "outra mãe".

A mulher, que parecia ser um doce de pessoa, revela ser uma vilã sinistra. Ela armou todo esse esquema para atrair- la e, no final das contas, quer tomar a alma dela, assim como fez com outras crianças no passado.

O medo e o fascínio 


Coraline é a mistura perfeita do medo e do fascínio, com uma atmosfera sombria e assustadora até mesmo para os adultos.
Sendo ma das obras mais sensíveis da animação, com uma fotografia impecável que nos faz entrar nesse universo magico e assustador.
Esse filme mergulha fundo nos nossos medos de infância, aqueles que talvez nunca tenham realmente desaparecido. Ele ressuscita a ideia de que anjos podem, na verdade, ser demônios disfarçados e nos alerta para o fato de que as pessoas que nos fazem temporariamente felizes podem, no fundo, querer tomar posse da nossa alma. Coraline nos faz encarar nossos pesadelos mais profundos e inquietantes.
A semelhança com "Alice Através do Espelho" não é coincidência, e, da mesma forma que as icônicas aventuras da personagem de Lewis Carroll, Coraline logo percebe que o mundo aparentemente encantador não é tão maravilhoso assim Neil Gaiman criou um conto de fadas moderno que mergulha nas raízes das histórias clássicas, inspiradas nos Irmãos Grimm.

A profundidade da obra 

As referências e o formato da obra podem ser assustadores, pois fogem do padrão das típicas histórias romantizadas pela Disney. Este filme não segue a fórmula das aventuras tradicionais, mas sim a do horror, proporcionando uma experiência única e perturbadora.
O filme nos leva a perceber o conforto que a ilusão traz, o quanto é difícil lidar com a queda de uma expectativa e entender que o mundo perfeito não existe.
   As vizinhas maluquinhas insistem de chamá-la de Caroline, forma mais comum do nome, mas está incorreto; esse não é o nome dela. A intencional incorreção no nome da personagem já insinua ao espectador que a perfeição é inatingível e as coisas nem sempre seguem as normas como deveriam.

O desejo da protagonista pelo mundo perfeito, ideal e feliz, onde todas suas vontades são feitas e tudo ocorre do jeito que ela quer, se torna um perigo. E esse desejo da garota surge de uma necessidade de atenção e carinho que ela nunca recebeu em casa, com seus pais verdadeiros.
 (imagem: divulgação/Universal Pictures)



Obcecada pela vontade de receber atenção, Coraline desconsidera de forma deliberada os óbvios indícios de perigo. A canção "Canção do Outro Pai" desvela para a garota o que a espera, com letras nada disfarçadas sobre as  horríveis intenções da Outra Mãe. Esta se aproveita dos momentos em que Coraline se encontra feliz e satisfeita, e começa a sussurrar-lhe palavras estranhas e perturbadoras contra seus verdadeiros pais, as quais a garota ignora em prol de seu mundo confortável.
A Outra Mãe é uma agressora e predadora de crianças que as atrai com a promessa de um mundo ideal, apenas para causar-lhes danos, e essa mutilação se manifesta simbolicamente através da remoção de seus olhos.

Quando Coraline se depara com essa terrível realidade, ela encontra as crianças fantasmas, e uma delas apresenta um olho de botão no lugar de um de seus olhos, enquanto o outro é coberto com a mão, implorando a ajuda da protagonista para recuperá-lo. Essa cena sugere que a vítima está dividida entre as manipulações do abusador e o desejo de recuperar sua autonomia. Os olhos de botão transformam as pessoas em marionetes nas mãos do abusador. Devido à sua natureza manipuladora, a Outra Mãe controla as crianças, retirando delas a autoestima, a capacidade de confiar nos outros e as mantendo isoladas em seu mundo sombrio. Ela não permite que ninguém escape do mundo refletido, pois sua influência só é eficaz na realidade que ela criou.

A ausência de olhos nos habitantes do outro mundo representa um obstáculo para Coraline, já que torna difícil para a garota perceber o perigo que ali se esconde. Os olhos, geralmente, revelam muito sobre as emoções e sentimentos das pessoas, e sem eles, ela não consegue compreender verdadeiramente essas pessoas. Isso é evidente no caso de Outro Wybie, que está claramente sofrendo sob coação e sendo forçado a enganá-la

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